Carta à escola #3

– Não vou pra escola, não vou!

A frase veio seguida de um grito, de chutes pro ar e ameaças nada agradáveis de se ouvir. Disse que não ia almoçar, que não vestiria a roupa e que, se eu insistisse, ia quebrar tudo. Do alto dos seus quatro anos ele buscou ser o mais assustador possível.

Eu comprei a briga. Não sei porque vejo ameaça em uma criança com metade da minha altura. Afinal, o que ele poderia fazer?

– Vai sim! Não vou admitir que fale assim comigo. Bora que tô com pressa!

Ele grita mais. Chora. Berra. Pergunto porque não quer ir pra escola. Não diz. Briga mais. Me irrito mais.  Fecho os olhos. Um vontade imensa de bater. Ele esperneia. “Calma, Elisama. Alma, Elisama”, recito meu mantra mentalmente. Que será que ele estava sentindo?

-Filho, você não quer ir porque vai sentir saudade da mamãe?

Toda a raiva se desfaz em lágrimas. Faz um sim com a cabeça, com um biquinho nos lábios. Ofereço o abraço e ele, agarrado em mim, chora até soluçar. Toquei na dor, percebi. Era esse o motivo da raiva, da irritação. Era vontade de estar perto. Passamos o final de semana muito juntos, ele não queria a despedida.


– Ô meu amor, a saudade dói mesmo…
Ele chorou mais.
– Não quero ficar sem você…
– Quer escolher uma foto da mamãe pra levar? Coloco na agenda, sempre que a saudade vier você olha.
-Mas eu quero você.
– Quando quiser a mamãe você olha, fecha o olho e sente esse abraço que eu tô te dando aí na foto.
– Como eu vou sentir?
-No coração…

Me dá mais um abraço. Come um pouco. Veste a roupa com a agenda na mão. Não larga. Meu coração apertado. Há pouco tempo eu estava brigando, impondo a minha vontade e me fechando em mim. Ele tinha que ir e acabou. Daí me abri pra ouvir. Pra enxergar além das minhas verdades. Ele brigava porque não sabia lidar com a própria dor. Aos quatro ninguém sabe. Aos 31 eu ainda sigo aprendendo.
Senti uma imensa compaixão pelo menininho falante e esperto que por vezes esqueço que chegou há pouco tempo nesse mundo.

Mais uma vez aprendi que a raiva esconde dores. E é preciso um ouvido atento e um coração aberto pra ir além do que parece óbvio. Nem sempre os tenho. Mas hoje tive. E, nessa vida de mãe, aprendi também a comemorar as pequenas vitórias.

Fonte: https://www.facebook.com/elisamasantosc/posts/539961666211988

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