Carta à escola #1

A seguir publico o texto de uma estudante universitária que recentemente ingressou no curso de licenciatura (área das artes) e que escreve um interessante relato sobre as lembranças que carrega do ensino regular, das escolas que estudou e dos professores que teve ao longo do ensino pré-escolar, fundamental e médio. A pedido dela, mantive o anonimato. Atualmente a autora está matriculada em uma universidade federal distante mais de 2 mil quilômetros da sua casa. Espero que seja uma leitura interessante a todos e obrigado pela colaboração.
Grande abraço.

Sempre estudei em escolas públicas e a primeira onde estudei localiza-se no mesmo bairro em que morei e cresci. Tenho boas lembranças dessa escola e meu primeiro contato com a mesma foi tranquilo. Gostava de frequentar as aulas e tive boas professoras nessa instituição escolar. Era uma escola simples, com dificuldades estruturais mas com ótimos educadores. Lá fiz todo o jardim de infância e pré-escola .
Frequentei por dois anos o ensino pré-escolar. Antes disso existia um prazer e uma curiosidade de ir para a escola ter meus amigos perto de mim, e eu gostava muito da minha professora. Os primeiros dias de aula foram tranquilos, me sentia bem indo para a escola, eu via que muitas crianças tinham a dificuldade de largar e deixar a mãe do lado de fora e entrar para a sala, eu nuca tive desse problema.

Quando conclui os estudos da pré-escola tive que mudar de instituição e fui estudar em outra escola, muito maior que a do ensino pré-escolar, uma instituição mantida pelas irmãs Salesianas.

Em minha cabeça a mudança representava o final de um período de muito encanto. A escola Salesiana é conhecida como Colégio das Irmãs no distrito em que morei. Acredito que essa espécie de desencantamento do ambiente escolar ocorreu nesse momento, e ao longo dos 5 primeiros anos, motivados por diversos fatores. A escola das Irmãs, desde aquela época, era conhecida pelo forte doutrinamento religioso-católico.

Eu tive uma professora que me marcou muito nesse período, ela era uma professora que gritava muito com a classe. Ela tinha algumas atitudes dentro da sala que eu naquela época já não achava justa, voltando com minhas lembranças vejo que não estava errada. Ela tinha a péssima mania de ficar comparando um aluno com outro e isso era muito constrangedor principalmente quando não se está no lado favorável a sua pessoa, e ainda existia uma lista na porta da sala com o nome dos alunos que se destacavam-se nas atividades. As irmãs religiosas também atuavam como professoras e na maioria das vezes estabeleciam uma relação “fria” comigo e com alguns colegas, e também muito mau humor.

Com o passar do tempo descobri o racismo na escola, em diferentes espaços e formatos, algumas vezes veladamente e outras bastante explícita. Essa foi uma fase muito marcante na minha vida escolar. Muitas vezes minha mãe precisou ir a escola para saber os motivos de determinada situação. Foram muitas vezes em que não me sentia aceita nas atividades em que a escola oferecia, como ballet, teatro, coroação de Nossa Senhora, entre tantas outras atividades onde as meninas e meninos de pele branca eram privilegiados. Isso é péssimo para uma criança ainda mais no inicio de sua vida acadêmica. Lembro até hoje de uma situação ocorrida com um amigo meu que também sofria um preconceito muito grande, onde as professoras e as irmãs alegavam que ele tinha algum “problema de cabeça” e que o lugar dele era na APAE. O motivo para esse diagnóstico nunca ficava esclarecido. Lembro da mãe dele e a minha mãe que volta e meia iam até a escola para fazer reclamações sobre o tratamento que recebíamos na escola. Ele ficou na escola regular por persistência da mãe dele, por acreditar que ele era uma criança normal, mesmo com algumas pessoas falando o contrário, como se ele não tivesse o direito de ficar na escola que a principio é pública e que, segundo a constituição, garante o direito de todo cidadão em frequentar o ensino regular. Hoje esse meu amigo ele é formado em psicologia.

Quando estava no quarto ano estudava em uma sala onde eu já tinha estudado com os mesmos colegas no ano anterior. Em determinado momento do ano letivo foi uma pessoa até a sala de aula, não me recordo quem, chegou dentro da sala e apontou para mim e mais um colega e pediu que trocássemos de sala, alegaram que nós dois não tínhamos como “acompanhar” o desenvolvimento daquela turma, a em vez de nos colocar em uma sala de nível de estudos diferenciado, colocaram-nos em outra turma que tinha sérios problemas disciplinares. Com essa mudança meu rendimento caiu drasticamente e, por recomendação de alguns professores e intermediação da minha mãe, ao final daquele ano achamos melhor refazer a quarta serie.

Depois que refiz o quarto ano mudei de escola novamente. Gostei muito de estudar nessa nova escola, foram os melhores anos escolares que tive em toda vida escolar. Nesse momento meu interesse pela escola renasceu como a “fênix”, minhas notas melhoraram muito, tinha vontade de ir para aula.

Lembro que na sexta serie eu tive um professor que foi um marco na minha reconciliação com a rotina escolar, pude entender que existiam professores bons e que alguns educadores conseguem conquistar uma legião de alunos, capazes de tornar mais leves até mesmo as aulas de matemática. Professores capazes de deixar os alunos com sorriso de orelha a orelha e depois tristes por ter chegado ao final da aula. Especificamente, lembro de um professor cabeludo que levava um micro system para a sala, em alguns momentos ele colocava um cd que os alunos levavam e eu adorava levar meu cd do Aerosmith. Também tive uma professora que era ótima ela conseguia fazer a turma toda fazer os exercícios com a metodologia dela de levar bolo para turma.

Quando cheguei ao final do ensino médio surgiram duvidas sobre o curso que escolheria para tentar ingressar na faculdade. Nesse momento os hormônios ficam em ebulição, mas ainda assim sempre tive certeza que queria seguir no ramo das artes e minha adolescência, de forma geral, foi tranquila tanto em casa quanto na escola. Nunca fui uma aluna indisciplinada, as vezes malandra com os deveres de casa mas sempre consegui notas boas para seguir para a série seguinte.

Conclui o ensino médio e acredito que foi uma fase muito boa da minha vida. Tenho um carinho fraterno com todos os amigos e colegas que fiz na escola, alguns tenho uma amizade firme até hoje outros se foram com o tempo… e por caminhos de vida diferenciados.

Tentei por anos ingressar em um cursinho pré-vestibular que tinha lá na minha cidade, era um cursinho patrocinado pela prefeitura. Era um pouco longe da minha casa e as vezes não tinha professor ou não tinha ônibus para os alunos que moravam distante (o meu caso). Mesmo tendo que voltar a pé não desanimei. Na minha cidade não tem curso de artes. Algumas vezes tentei vestibular na Capital e não obtive sucesso. Hoje consigo entender que não era o momento ainda. Pois vejo que a hora certa de entrar em uma faculdade, em um curso que realmente gosto, foi esse ano de 2015. O ano que agora sei o que estudar com prazer e com vontade de fazer e dar o meu melhor. Sem preconceito, sabendo que sou capaz de enfrentar as dificuldades deste percurso e merecedoras de estar em uma universidade federal. Venci muitas barreiras internas e externas para estar na universidade atualmente, mas valeu a pena cada momento que passei, pois me deixou uma pessoa forte e capaz de dar valor a cada segundo de aula nessa universidade. Reconheço o esforço da minha mãe, a força que ela teve para enfrentar muitas coisas por mim. Isso também me da força de seguir em frente e ter orgulho em ser a primeira estudante universitária de artes (e futuramente formada em artes) em uma família de mais de 10 artistas.

😉

One comment

  • eu gostei foi ótimo.
    .Mais essa sorte eu não tive.
    .eu passei numa particular e cara.
    .a minha mãe nem ligar.
    .eu sou músico.
    .O meu pai foi embora de casa.
    .eu passei numa particular de Música.
    .e não tive apoio de ninguém.

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