Carta à escola #2

Passei o fim de semana tentando fazer funcionar o meu notebook. Na sexta-feira eu trouxe ele do conserto (no fim de semana não abre a loja que fez o reparo) então eu passei todo o fim de semana tentando tirar dele um polígrafo para os meus alunos. O reparo do meu computador tinha me custado a importância de quinhentos contos de réis…
A importância disto está no fato de que a supervisão da minha escola me possibilitou a escolha de uma coleção de livros didáticos para serem adotados, mas que devido à crise moral que se abateu sobre Brasília faltou dinheiro e está cancelada a encomenda de livros para as escolas.

Isto significa que eu não tenho mais descanso. Eu passo dias e noites planejando e adequando conteúdos para os meus alunos, eu penso nas aulas que não podem ser muito difíceis para serem adotadas (mas que também podem ser muito fáceis). Elas têm de durar exatamente um ou dois períodos, e elas devem contemplar tanto aos meninos carentes que moram no “Buraco Quente” (a comunidade mais convulsionada da capital), como aos jovens e adultos do EJA noturno, e também aos adolescentes do ensino médio, onde eu me tornei pastor ecumênico e, além das aulas de arte, eu ensino também religião.

E eu sempre estou sujeito a críticas. Eu posso até tentar fugir dos professores e das direções das minhas três escolas, mas não dos alunos. E muito menos dos pais dos alunos, que nunca me procuram para elogiar.
Como eu dizia, hoje é segunda-feira e entonces fui alegre dar aulas na escola fundamental, que foi arrombada no fim de semana e no assalto os bandidos roubaram toda a fiação elétrica para ser vendida por quilo num receptador e poderem comprar craque para fumar. Três salas de aula foram danificadas e a diretora estava me aguardando na frente do colégio para criar coragem de juntos vermos os estragos que tinham sido causados.
Desta vez não foi furacão como antes, era um simples ladrão.

Depois disto, quando fui reproduzir no Xerox o material que eu produzi descobri que não havia mais toner. Umas sacudidelas talvez resolvessem, mas também não havia mais folhas de papel A4 na escola que eu pudesse usar. Mas então, que tipo de aula eu posso dar? Tenho de ter um plano B, uma carta na manga, coisa que eu sempre levo comigo e que diante do exposto pedi aos alunos que criassem então um lettering de tipos gráficos com o nome deles em papel quadriculado. Papel que me foi presenteado pela abnegada professora de matemática para as aulas de artes da escola.

Foi no recreio que uma professora se aproximou de mim e contou que se preparava uma rebelião contra mim e a professora Maria. Os alunos da turma 6A estavam revoltados por que tínhamos resolvido levar os alunos da 6B no Parque Estância do Harmonia na quinta-feira à tarde e eles não foram convidados.
Ai, antes de terminar o intervalo eu resolvi contar a história de que a Secretaria da Educação teria proibido o passeio por ser um ano que de greve e os professores terem de recuperar as aulas atrasadas ao invés de saírem para levar seus alunos no parque. Tudo conversa inventada.
Teve o caso também de nesta semana de eu mandar o aluno Wallace para a secretaria por ter me mandado eu me f…, mas isso é outra história.

Na última manifestação que organizamos um louco estacionou o carro e deu vários murros na cara de uma professora que reclamava dos atrasos no pagamento dos nossos salários.
Se o governador falasse sério, se o presidente manter a palavra, se meu salário fosse pago em dia, se a prioridade fosse realmente a educação como os candidatos prometem, o país seria outro. Depois disso tudo, vou reclamar para quem? Para o judiciário não é, por que mantém o salário deles em dia, eles não têm seus salários parcelados.
A preocupação de todos é exclusivamente com o Neimar e o Geromel.
Mas a minha expectativa é com o resultado do ENEM. A cada ano a situação piora. Quem planta feijão não colhe alfaces, colhe?

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